sexta-feira, 9 de julho de 2010

Entre murros, lágrimas e páginas rasgadas



Mais um post daqueles “lá vem o Anselmo novamente encher nosso saco com esse negócio de escola pública...” Pois então, ontem um de meus alunos, S. veio se lamentar para mim “a professora de educação física está puta comigo”. Perguntei por que e ele me disse que deixaria de jogar pela escola para representar outra (particular), da qual recebera um convite e, de quebra, uma bolsa de estudos. Eu lhe contei um caso em que um antigo conhecido meu fora preterido de jogar no time brasileiro em um congresso de medicina. Desacorçoado, o estudante à época acabou recebendo guarida em outro time, o escocês que lhe rendeu a vitória graças a um único gol, o seu. Com isto, eu quis que ele não desistisse e fosse além, superando os argumentos gregários, como o de ter que jogar no time da seleção brasileira no congresso internacional ou na sua péssima escola, no caso de meu aluno. O que ele, como indivíduo, ganha em troca? Esta é a questão. Justamente por pensar em termos estritamente coletivos é que essa gente não vai a lugar algum. Falta-lhes ambição, mas mais do que isto, método para alcançá-la. Quando o indivíduo, depois de dar suas braçadas neste mar turbulento da incompetência pública e seu “espírito de comunidade”, alguém vem com um tosco argumento querendo tirar seu sonho?
O que isto tem a ver, especificamente, com a escola pública? A questão é que o espírito de “tudo pelo coletivo”, “tudo é social” e estas merdas todas anulam ou impedem que uma retardada professora veja o caso do referido aluno como de um retumbante sucesso que deveria ser louvado. Não o simples fato de passar para uma escola particular. Não se trata disto especificamente, mas dele poder ser contratado por clubes locais seguindo esta rota indicada por um professor de educação física que serviu como olheiro. Quando a escola, finalmente serve para alguma coisa, vem uma professora dizendo para o sujeito desistir?!
Deixem-me dizer algo sobre o referido sujeito, S. foi um dos garotos que teve a ‘sorte’ de topar comigo no ano passado. Em meio ao caos provocado por diretores incompetentes, ele foi mais um dos que devido à falta de ordem seguiu na indisciplina. De aluno razoável passou a péssimo logo após (por coincidência ou não) seu pai ter rasgado a barriga do irmão mais velho com um estilete, quando este tentava defender a mãe de suas agressões. Depois, como se tentasse negar isto ou forçar uma alegria, S. sucedeu aprontando e fazendo escárnio de professoras, especialmente as mais velhas. Num determinado dia durante o recreio, S. gesticulou simulando uma curra nas costas de uma velha professora. O diretor, nem aí, fingiu ignorar o gesto. Só que eu vi e comecei a berrar com o cara chamando sua atenção e da supervisora pedagógica. Como era no meio da semana, ele levou só três dias de suspensão. Fiquei mais de uma semana sem vê-lo porque faltou a minha aula na semana seguinte.
Não tem lero-lero, faltou com respeito não importa se tem problemas em casa, sua condução na escola deve ser outra. Aliás, hoje, este aluno, S., por incrível que pareça, é um dos que melhor acompanha minhas aulas na 7ª série.
Na mesma semana, um sujeito socou outro, bem menor, na boca. O motivo: estava rindo do calçado que usava, tido como “de pobre”, parte do uniforme de trabalho dos operários da região. Era motivo, sem dúvida alguma, para o professor de religião que presenciara o incidente explorar e tripudiar em cima dos colegas escrotos por participarem da chacota, mas ou não percebeu ou ignorou o ocorrido. O professor interveio ao que o agressor J., bastante exaltado, disse “fica frio, fica friozinho aí”, pronto para encarar quem quer que fosse.
Quando entrei em sala, a turma encontrava-se atipicamente quieta e durante minha aula, a diretora e o professor envolvido interrompem-na para se interar do caso. Depois daquela pseudo-acareação, eu aproveitei para comentar e dar minha dica, de que não se deveria provocar daquela forma, independente da ação, que a condenei certamente, que o procedimento deveria ser outro etc. Neste momento, a turma redargüiu sobre o comportamento de J., que gostava de afrontar todos, inclusive assediando fisicamente as alunas. Claro que esta exposição o tornava além de agressor, alvo de vingança coletiva da forma que a turma encontrou quando pôde e como pôde. Então, se o caso não tinha atenuante, ao menos deveria ser mais abrangente, uma vez que havia uma sucessão de assédios sem encaminhamentos. De qualquer forma, o inadmissível era a resposta de J. a isto tudo, tomando as rédeas da situação conforme lhe convinha e escolhendo uma vítima mais próxima e fraca.
Ao encontrar a diretora ao final das aulas para lhe informar do que soube, ela começou a chorar com lágrimas forjadas por um sentimento ensaiado. Ali percebera, sentira sua falsidade. Na verdade, a mulher era mais uma histérica com Síndrome de Estocolmo, um padrão de certas pacientes psiquiátricas.
Lágrimas, como as que vi em R., aluno da 7ª série que desde o ano passado se esmera em agredir outros, geralmente menores, da 1ª a 4ª séries. Trata-se de um cafajeste, para dizer o mínimo. Semana passada em meio ao empurra-empurra do recreio, colocou o pé junto ao pé de A., uma menina da 5ª e com sua mão empurrou suas costas para o chão. Ela se apoiou com os braços torcendo um dos pulsos. Corri pela escola em seu encalço e fiz um escarcéu durante o intervalo dos professores ao que a diretora chamou o Conselho Tutelar. Uma das oficiais foi simpática ao meu relato, mas o outro, um idiota que achava que não precisava me ouvir, tentou me ignorar. Uma nota: há diversos profissionais de ensino ou ligados ao mesmo que desprezam professores por entenderem que há uma “questão social maior”, o que significa para bom entendedor, que todo delito deve ser “compreendido” e perdoado. Ele dizia “vou registrar a ocorrência na 2ª, para que tua mãe não te bata no fim de semana, assim ela já vem nos ver na 3ª”. Conheço a história desse garoto e a resposta que sua mãe já nos deu foi a clássica “mas, lá em casa ele não é assim...” Resultado, nesta semana já estava procurando outro aluno da 5ª para esfolar. Quando o encontrei, perguntei “e aí R., batendo muito ainda?” e o covarde que na semana anterior despejava suas lágrimas em frente ao conselheiro respondeu “não, só esmurrando”. Enquanto isto, pedagogos universitários continuam ignorando a questão básica, a disciplina, sem a qual nenhum planejamento ou concepção teórica educativa subsiste.
Para que não pareça que o problema seja restrito a prática de ensino e relação com alunos, eu relato outro pequeno caso, desta semana também. Em uma aula da 8ª vi alguns alunos jogando bolinhas de papel amassado uns nos outros. Estava pronto para contê-los ao que reparei na cor e textura diferentes e perguntei de onde era. “Eles estão rasgando livros de doação!” ouvi. Como? Sim, eram livros doados pela biblioteca. Clássicos da literatura, rasgados, riscados etc. Tomei-os de volta e levei para a bibliotecária que se mostrou visivelmente assustada. Eu é que não entendi a razão de sua surpresa no lugar de raiva ou indignação. Mais tarde a ficha cairia quando ela desabafava no intervalo em meio ao cafezinho e bolachas secas: “tive que me desfazer daquelas porcarias que fui pegar e até machuquei meu dedo, aquelas porcarias, estraguei minha unha”. Do jeito que a coisa vai, talvez sobre um lugar para “essas porcarias” em algum museu.
Alunos que servem de sparring a outros alunos, professores que tentam abortar sonhos individuais, diretores histriônicos e sem ação... Que mais posso esperar? Eu pareço um ET naquela zorra. Só faltava mesmo uma bibliotecária-aborígine com menos competência que os ácaros no zelo pelo amontoado de papel velho em brochura que um dia inspirou alguém a ensinar.
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