domingo, 29 de novembro de 2009

Deuses modernos







Um amigo, também professor, me contava que conhecera um casal de promotores, gente boa, realmente comprometida com seus objetivos. Ela da área criminal e ele da cível (é assim que se escreve?). Bem, papo vai, cerveja vem, não poderia deixar de ocorrer uma divergência ou outra, mas estas foram bem administradas. O que mais o impressionou, mas depois acabou entendendo que se não for assim não funciona é que o casal, particularmente o rapaz era um grande idealista. 

“O país está melhorando graças à inclusão...” Aos nossos ouvidos, ‘inclusão’ soa como um verdadeiro palavrão. Sei que não deveria ser assim, pois se tratasse de inclusão na economia de mercado (coisa que eles não consideram como importante, pois sequer cogitam como benefício), realmente, o sistema poderia funcionar, complementando o principal, a inclusão no estado de direito. Para quem trabalha em escolas que são obrigadas a incluir alunos com retardo mental, sem capacidade de acompanhamento da turma em que se inserem, não funciona. Começo a desconfiar que a insistência e apoio das administrações públicas no conceito de inclusão social correspondem a uma “boa estratégia” para reduzir custos com profissionais qualificados. Na prática, os alunos com este tipo de especificidade vão sendo empurrados ano após ano, apesar do alargamento do hiato cognitivo em relação aos demais.

Se pensarmos que “o papel da escola” não é o de ensinar operações matemáticas básicas e ler e escrever minimamente bem, então a ‘socialização’ pode funcionar. Antes de mais nada, eu discordo disto, pois (a) há outros lócus mais apropriados de socialização do que a escola brasileira no geral; e (b), a escola deve sim ter um como premissa, o ensino de um conteúdo mínimo, básico para que os indivíduos possam interagir socialmente no mercado e perante o estado brasileiro. Se o indivíduo é incapaz disto devido à suas condições especiais, não adianta tapar o Sol com a peneira tratando igualmente os que são profundamente desiguais. A ‘igualdade’ neste caso só contribui para amplificar as diferenças.

Onde me deparei com estas situações (cerca de quatro vezes ao longo da vida), os alunos respeitam e incorporam o aluno com necessidades especiais, mas para estes, a comparação com os demais é inevitável. Pelo que percebi, a exclusão começa aí, quando se tem alguma capacidade de relativização, na qual o garoto ou garota se vê como incapaz ou retardatário perante a turma. Se a idéia era evitar a discriminação, acabar com ela, o que ocorre é justamente o contrário, ela é afirmada.

“Pois é, tem esse detalhe que a gente não vê...” falou a promotora. Silêncio foi a resposta do promotor que imbuído de sua fé no escudo jurídico e disposição para lutar pelos direitos dos jovens não conseguia contemplar feedbacks negativos. Afinal, como contestar a perfeita arquitetura jurídica desses deuses modernos?

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